Pedido de casamento no cinema

Que eu sou apaixonada por pedidos de casamento vocês já sabem né? Quando vi o pedido da Laís no Facebook, já fiquei louca pra postar ele aqui. Foi, literalmente, um pedido de cinema, daquele jeito que a gente só vê em comédias românticas, de surpresa, com os amigos e a família nas cadeiras de trás. É muito amor pra um filme só, e ninguém melhor que a noiva (que deu um show no texto) pra contar isso pra gente!

Imagine um dia como outro qualquer. Esse foi o dia em que virei noiva. Tudo estava perfeitamente dentro do script para um domingo padrão: acordar, tomar café, almoçar, dar um tempinho de descanso, ir ao cinema, voltar, dormir. Pura preguiça, nada de novo. Eu nem imaginava que, em meio a essas atividades, voltaria pra casa com um anel no dedo.

Aqui, preciso parar pra te contar que eu nunca uso joia, nenhuma. Não uso brinco, colar, pulseira, anel. Nada, nunca. Nem quando vou a formaturas, muito menos quando vou a casamentos. E você vai entender mais pra frente porque é que estou te contando isso.

Como eu ia dizendo, era um domingo normal. Resolvi almoçar risoto, que é meu prato preferido, mas tentei fazer com vinho tinto e não acertei a receita. Eu sabia que tinha que almoçar mais cedo porque o Danilo já tinha combinado um cinema. A gente ia ver um filme bem lado B, com um título tão grande quanto esquecível, mas a causa era nobre: o reitor da faculdade onde ele leciona tinha o pedido para checar a estrutura do cinema para algumas atrações da Semana da Comunicação. Pedido de chefe a gente não nega, e eu gosto de ver uns filmes mais cabeça de vez em quando. Estava tudo dentro dos conformes, apesar de o risoto ter saído um pouco da curva.

Depois do almoço, resolvemos ver o final da primeira temporada de Stranger Things. Faltavam dois episódios só, que vimos encantados (a série é realmente muito boa!). Perguntei se ainda tinha tempo de tirar um cochilo rapidinho. Se eu soubesse o que estaria por vir, eu não teria feito isso… cochilos me dão preguiça e me fazem querer dormir mais. Na hora de arrumar pra sair, clamei por mais dez minutinhos de descanso – o que me fez ir pro cinema sem banho! Comecei a pedir o briefing da ocasião pro Danilo: como ele tinha me dito que era lançamento do tal filme, será que o pessoal da universidade iria? E se tivesse um coquetel depois? Com que roupa eu vou?

Após muito tempo de escolha, resolvi ir com meu “vestido do ano”. Todo ano compro uma roupa que é pau pra toda obra: dá pra ir na festa, no sítio, na reunião, ficar em casa. É tipo um curinga que a gente usa quando aquela roupa que a gente queria ainda tá secando no varal. E faz a gente economizar uma boa grana, pois ao invés de comprar um vestido pra cada coisa, fica com uma peça só. E, nesse domingo, tive a felicidade de escolher justamente essa roupa.

Na ida pro cinema, Danilo não saía do celular. Eu já comecei a ficar nervosa. Primeiro, odeio quem dirige e tecla ao mesmo tempo. Segundo, porque ele falava que era uma pessoa só que estava mandando todas as mensagens. E eu pensando: “gente, mas que saco! Essa pessoa não vai sair do pé?”. (Na verdade, óbvio, não tinha uma pessoa só enchendo o saco: eram várias, falando que estavam atrasadas ou fazendo perguntas que o estavam deixando tão nervoso quanto eu. ;p )

O cinema em questão era o Cine 104, no centro de BH. Paramos o carro em um estacionamento e atravessamos em meio a uma manifestação da CUT. Aí, já comecei a relaxar: a cena era cômica, com a praça inteira vestida de vermelho enquanto meu vestido era super azul-tucano, parecendo que eu tinha acabado de sair de uma farra do PSDB. Comecei a imaginar o que seria de mim se aquelas pessoas me percebessem… coxinha seria o nome mais carinhoso pelo qual iriam me chamar.

Aqui, preciso parar de novo pra te contar que sou assim mesmo: imagino as coisas mais absurdas, tais quais no Fantástico Mundo de Bob. Só para se ter noção, na vez que fui assaltada, o primeiro pensamento que tive ao ver a arma na mão do assaltante foi: “gente, mas o que esse homem está fazendo andando com arma na rua em plena luz do dia?”. Meu raciocínio é bem lento. E você vai entender mais pra frente porque é que estou te contando isso.

Chegamos no cinema sem nenhuma intervenção política, pedimos as cortesias (que a universidade tinha cedido pra que a gente visse o filme) e uma pipoca. Não tem pipoca. “Me vê então esse Chips aí!” A moça deu. Imagine dentes amarelos nas fotos que iriam ser tiradas, mas que eu não tinha como saber.

Indo pra sala, Danilo sugere irmos ao banheiro. Aceitei a sugestão de bom grado, porque odeio ter vontade de fazer xixi no meio do filme – e, em se tratando de um longa alternativo, sabe-se lá que horas isso iria terminar. Na volta, já quase no horário marcado da sessão, ele quis esperar mais um tiquinho para mandar uma mensagem. Aí, voltei a ficar nervosa. Bati o pé e falei: “então vou indo, cê me vê lá dentro”. Ele correu atrás de mim, entramos na sala juntos.

O cinema estava lotado, mas as luzes já apagadas. Consegui fazer contato visual com uma só pessoa, que eu nunca tinha visto na vida. Nos sentamos na primeira fila (ele também tinha dado uma desculpa pedindo isso, que agora eu não me lembro), e quando Danilo foi tirar uns puffs que estavam bem à nossa frente, deixou cair no chão a latinha de Coca que tinha comprado. Aí, eu que já estava puta, fiquei ainda mais. Imaginei que o cinema estaria lotado de hipsters que iam dizer que o casal coxinha estava emporcalhando o cinema todo. Aguardei os xingos, mas eles não vieram.

Viu como minha imaginação vai longe?

Na verdade, você não viu nada ainda…

No escurinho do cinema, comentamos baixinho sobre o que poderia estar por vir no filme prestes a começar. Achei que seria um drama. Ele também. Provavelmente não com final feliz, filmes lado b não se importam com isso. ele também achou. E de repente começa a passar o trailer do documentário sobre a Janis Joplin. Esse eu quero ver! De repente, a tela fica preta de novo, por um tempo considerável. “Tá demorando, né?”, ele diz. Eu disse um “é” meio blasé. Pra mim, era algum pau normal de vídeo, que acontece na maioria dos cinemas quando precisam mudar o rolo, a fita, o dvd, enfim.

A tela volta a ganhar vida. Com um desenho que o Danilo fez da gente!

Em uma fração de segundos, minha mente volta ao confortável fantástico mundo de Bob. A primeira coisa que eu pensei foi que tinham plagiado o desenho do Danilo. Na cara dura! No filme de nome esquecível! Que absurdo!

Aí vem mais um desenho que Danilo fez da gente, e meu raciocínio lentíssimo pensa que é a universidade que está o homenageando, já que tinham mandado ele ir até lá ver o filme.

Sério.

Quem pensa uma coisa dessas?

Veio a terceira cena. Quando olho pra ele, tem um risinho no canto da boca. E foi aí que minha ficha caiu. “Eu vou te matar depois disso, você sabe né?”. Ele riu. Ele sabia que eu não iria matar nada. Que era hora de olhar pra tela e aproveitar o momento.

Estava tão alucinada pela situação que não consegui ouvir muitas das falas do que, agora eu sabia, era o trailer de um filme. O filme da nossa história. E quando tudo acabou, e ele se ajoelhou, passou pela minha cabeça todas as vezes que eu tinha comentado que não queria um pedido de casamento literalmente cinematográfico – e o quanto eu estava errada. Foi muito bonito! É claro que eu queria.

Já em pé, com o anel de noivado no dedo, ele me oferece uma aliança.

Aí entra a parte de eu não usar joias e do meu raciocínio ser lento, tudo como se fosse uma coisa só. Na hora, não sabia qual era a intenção daquela aliança. O casamento ia ser ali, agora? Em qual dedo eu ia colocar esse segundo anel? Ele colocou no dedo direito. Aí eu entendi. Mas como não uso nenhuma joia, ele não tinha a menor ideia do tamanho do meu dedo. Elas ficaram um pouquinho largas no anelar direito (no esquerdo serviriam perfeitamente), mas não era nada que não pudesse ser resolvido.

Alguém no fundo grita: “e a resposta?!”. Eu só lembro de tê-lo abraçado, e acho que as pessoas entenderam.

Foi aí que perguntei, quase mecanicamente: “minha mãe sabe disso?”. Ele me diz pra olhar pra trás e, aí, vejo não só meus pais, como boa parte da família dele (a minha é do interior) e uma parte dos nossos amigos em comum. A emoção, nessa hora, foi muito grande. Meu pai estava recém-operado, cheio de pontos, não podia dirigir – e eu sabia que minha mãe odiava dirigir na estrada. Só de vê-los ali, fazendo cada um o seu esforço para ver o meu momento, comecei a chorar.

Ah, e lembra daquela única pessoa com quem eu fiz contato visual, e que nunca tinha visto? Era o assistente do fotógrafo – e o fotógrafo eu conhecia. Imagina se eu olho pra qualquer outra pessoa?! No fim, a surpresa deu tão certo que nem isso aconteceu.

Depois, fomos comemorar em um bar, todo mundo junto, e eu comecei a ligar para as amigas que não tinham ido – no nervosismo, ele esqueceu de chamar um tanto de gente. Já tinha um filminho sobre minha reação, fui mandando pras pessoas, que me respondiam estar às lágrimas. Sim, o Danilo é bom nesse nível.

E assim foi o meu pedido de casamento. Um dia que começou com um risoto dando errado, Stranger Things, cinema sem banho, terminou com um anel e uma aliança no meu dedo. Joias um pouco larguinhas, mas cheias de significado.

Eu, que nunca pensei casar, achava bobagem e pensava em quantas viagens internacionais poderia fazer de primeira classe com o dinheiro do casamento, já estou aqui juntando moedas para o grande dia, que vai ser 16 de junho de 2018. Eu, a pessoa que nunca teve interesse por joias, vive olhando pro brilhante no dedo sem se esquecer de que grande dia foi o 24 de julho de 2016. Eu, que já sabia de cor e salteado o talento do meu até então namorado, não deixo de pensar no quanto ele se superou ao fazer essa surpresa. O detalhe é que ele levou seis meses para terminá-la, e eu não consegui nem desconfiar de absolutamente nada.

Mas amei cada detalhe quando eles aconteceram.

Agora, vamos ter que nos superar (eu, particularmente) pra fazer ao casamento a justiça do seu pedido.

(Ah! E se ficou alguma dúvida no ar, pra finalizar, pode ficar tranquila: assim que cheguei em casa, eu tomei banho.  ;p )

Laís Menini é redatora, diretora-executiva da Tea With Me, cruzeirense e viciada em séries. Agora, também atende pela alcunha de noiva do Danilo Aroeira, o artista que fez o pedido.

O Danilo arrasou, né? Fiquei querendo um vídeo desse também! rs

Adorei a ideia e gostei mais ainda quando li ele contando sobre o making of!

Parabéns Laís e Danilo, e obrigada por compartilharem esse dia tão especial por aqui! Vou ficar esperando o casamento, hein?

Fotos: Mark Greathouse | Local: Cine 104

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